Poucas figuras marcaram tanto a história das religiões quanto Moisés. Legislador, libertador e protagonista de boa parte do Antigo Testamento, ele não apenas conduziu um povo inteiro para fora da escravidão, como deixou um legado que continua sendo lido e estudado milênios depois.

A tradição lhe atribui a autoria dos cinco primeiros livros da Bíblia, o chamado Pentateuco. Sua biografia, distribuída entre os livros de Êxodo e Deuteronômio, mistura drama pessoal, disputa política e experiência espiritual, e ajuda a entender como se formou a identidade do antigo Israel.

Um nascimento sob ameaça de morte

A vida de Moisés começa em perigo. Nascido no Egito, na tribo de Levi, filho de Joquebede, ele veio ao mundo num tempo em que o faraó havia ordenado que todo recém-nascido hebreu do sexo masculino fosse lançado ao rio. Desafiando o decreto, seus pais o mantiveram escondido por alguns meses.

Quando já não era possível ocultá-lo, colocaram a criança num cesto de junco vedado com piche e o deixaram flutuar nas águas. À distância, a irmã acompanhava o percurso, até que a filha do faraó encontrou o cesto e se afeiçoou ao bebê. Rapidamente, a menina se ofereceu para buscar uma ama de leite — e trouxe a própria mãe biológica da criança para amamentá-lo.

Depois de criado pela família, o menino foi levado para a corte egípcia. A origem de seu nome ainda gera debate: uns defendem uma raiz semítica que significa "tirado para fora", outros apontam uma origem egípcia com o sentido de "nascido". Também não há certeza sobre quem o nomeou — pode ter sido a princesa ou sua própria mãe.

A fuga para Midiã e o chamado divino

Educado em toda a sabedoria dos egípcios, Moisés cresceu ciente de suas raízes. O ponto de virada veio ao ver um egípcio espancando um hebreu. Ao intervir, acabou matando o agressor e escondendo o corpo, convencido de que ninguém havia presenciado a cena.

No dia seguinte, ao tentar separar uma briga entre dois israelitas, foi confrontado com o que fizera. Sabendo que o faraó agora queria matá-lo, fugiu para o deserto do Sinai e se fixou em Midiã. Lá defendeu as filhas de Reuel — também chamado Jetro — e casou-se com uma delas, Zípora, com quem teve dois filhos, Gérson e Eliézer.

Passou então quarenta anos como pastor de ovelhas. Foi durante essa rotina, perto do monte Horebe, que ocorreu o episódio decisivo de sua vida: a revelação divina na sarça ardente. Chamado a voltar ao Egito para libertar seu povo, Moisés hesitou, alegando não ter facilidade para falar. A resposta veio na forma de seu irmão Arão, designado para ser seu porta-voz.

O confronto com o faraó e a passagem pelo mar

Aos oitenta anos, depois de quatro décadas no deserto, Moisés retornou ao Egito acompanhado de Arão para enfrentar o faraó. Diante da recusa em libertar os israelitas, o país foi atingido por uma sequência de dez pragas, entendidas como um julgamento sobre a nação e seus deuses.

Antes da última delas, que resultaria na morte dos primogênitos egípcios, Moisés recebeu as instruções para instituir a Páscoa. Só depois desse acontecimento o faraó finalmente cedeu e liberou os hebreus.

A partida, porém, não encerrou o conflito. O exército egípcio saiu em perseguição e encurralou os fugitivos junto ao mar. É aí que a narrativa chega ao seu ponto máximo, com a divisão das águas do mar Vermelho, que permitiu a passagem do povo e o subsequente afogamento das tropas que os seguiam.

Quatro décadas no deserto e a entrega da Lei

O caminho até a Terra Prometida se estendeu por quarenta anos, marcados pelo sustento do maná e por momentos de forte tensão. No monte Sinai, Moisés permaneceu quarenta dias e quarenta noites, recebendo as tábuas de pedra com os Dez Mandamentos. Como registra a Enciclopédia Britânica, esse conjunto de leis se tornou a base espiritual e social sobre a qual a nação hebraica se consolidou.

Mesmo sob sua liderança, a incredulidade e as repetidas rebeliões do povo prolongaram a jornada. Como consequência, toda a primeira geração que deixara o Egito morreu no deserto antes de chegar ao destino.

O próprio Moisés enfrentou contestações à sua autoridade e foi impedido de entrar na Terra Prometida. Embora tenha lamentado essa sentença em oração, seguiu conduzindo o povo até as fronteiras de Canaã.

O fim da jornada de um líder

Ao se aproximar do fim, Moisés preparou a sucessão, indicando Josué como o novo líder diante do povo.

Com 120 anos, subiu ao monte Nebo e pôde ver de longe a terra reservada aos israelitas. Morreu em Moabe e foi sepultado no vale pelo próprio Senhor, num túmulo cujo local exato jamais foi encontrado. Sua história permanece como um dos relatos fundadores mais estudados da literatura ocidental.