A maioria das pessoas conhece Branca de Neve pelas versões suavizadas que passaram de geração em geração. Poucos, porém, imaginam o quanto o enredo original da Branca de Neve é mais denso, cru e perturbador do que as adaptações modernas costumam mostrar.
A seguir, percorremos a narrativa clássica que deu origem a um dos grandes mitos da literatura ocidental, em que inveja, magia e justiça poética se cruzam de forma inesquecível.
Um nascimento e um luto imediato
A história começa numa tarde rigorosa de inverno. Costurando junto a uma janela de moldura de ébano, uma rainha espetou o dedo com a agulha. Ao ver três gotas de sangue caírem sobre a neve branca do parapeito, formulou um desejo profundo: ter uma filha de pele branca como a neve, lábios vermelhos como o sangue e cabelos negros como o ébano.
Não demorou para que o desejo se realizasse. Nasceu uma menina exatamente com essas características, que recebeu o nome de Branca de Neve. A alegria, porém, foi curta: a rainha morreu logo após o parto.
Um ano depois, o rei voltou a se casar. A nova rainha, embora de extraordinária beleza, era vaidosa, orgulhosa e cruel, incapaz de suportar a ideia de que alguém pudesse superá-la em beleza.
O espelho e o caçador que fraquejou
A madrasta possuía um objeto que seria central para toda a trama: um espelho encantado. Todos os dias, postava-se diante dele e perguntava quem era a mulher mais bela de todas. E o espelho sempre confirmava sua supremacia, deixando-a satisfeita.
Tudo mudou quando Branca de Neve completou sete anos. Nessa idade, sua beleza já superava a da madrasta. Ao fazer a pergunta de sempre, a rainha ouviu do espelho que a jovem princesa era agora a mais bela. O ciúme rapidamente virou ódio.
Sem tolerar a existência da menina, a rainha ordenou que um caçador a levasse para o fundo da floresta e a matasse, exigindo seu coração como prova. Diante do choro e da inocência da criança, porém, o caçador não teve coragem. Poupou sua vida e mandou que fugisse para nunca mais voltar.
Para enganar a rainha, o homem abateu um javali, retirou o coração do animal e o entregou ao castelo. Convencida de sua vitória, a madrasta mandou cozinhar o órgão e o comeu.
O refúgio na casa dos sete anões
Sozinha e apavorada na floresta, Branca de Neve correu por horas até encontrar uma pequena cabana numa clareira. Ao entrar, viu uma mesa posta com sete pratos, sete copos e sete caminhas arrumadas. Faminta, provou um pouco de cada prato e bebeu de cada copo. Depois, experimentou as camas até achar uma confortável e adormeceu profundamente.
A casa pertencia a sete anões que trabalhavam nas minas das montanhas. Ao voltarem à noite, perceberam que seus objetos haviam sido mexidos e encontraram a menina dormindo. Encantados com sua doçura, decidiram não acordá-la. Naquela noite, o sétimo anão dividiu o sono, passando uma hora na cama de cada companheiro.
De manhã, ao ouvir o relato da fuga da madrasta cruel, os anões ofereceram abrigo seguro. Em troca de proteção, Branca de Neve cuidaria da casa — cozinhando, limpando, lavando e costurando. Antes de saírem para o trabalho, sempre a advertiam para não abrir a porta a estranho algum.
As três investidas da Rainha Má
Acreditando estar livre da rival, a rainha voltou a consultar o espelho. Para seu desespero, o objeto revelou que Branca de Neve continuava viva, morando além das colinas, na cabana dos anões.
Decidida a terminar o serviço, a vilã planejou três ataques mortais:
- Os laços e rendas: disfarçada de vendedora, a rainha foi à cabana e ofereceu belas rendas para o vestido da jovem. Ao ajustá-las, apertou-as com tanta força que Branca de Neve desmaiou sem conseguir respirar. Os anões chegaram a tempo de cortar as tiras e salvá-la.
- O pente envenenado: furiosa com o fracasso, a rainha preparou um pente impregnado de veneno e assumiu outro disfarce. Ao passá-lo pelos cabelos da menina, a toxina agiu de imediato e ela caiu desacordada. De volta, os mineradores retiraram o pente e a reanimaram.
- A maçã dividida: na terceira tentativa, a rainha fez uma fruta com a metade vermelha envenenada e a branca intacta. Disfarçada de camponesa, ofereceu a maçã. Para mostrar que era segura, mordeu o lado branco e entregou o vermelho à jovem. À primeira mordida, Branca de Neve caiu imóvel.
Dessa vez, os anões tentaram de tudo, mas não conseguiram acordá-la. Depois de chorarem por três dias, construíram um caixão de vidro transparente e o colocaram no topo da montanha, mantendo sempre um deles de guarda.
O caixão de vidro e o castigo da vilã
Tempos depois, um príncipe que cavalgava pela região encontrou o caixão. Leu as letras douradas que identificavam a jovem como filha de um rei e comoveu-se com sua beleza intacta. Implorou aos anões que o deixassem levar o caixão ao palácio, prometendo honrar para sempre a memória de Branca de Neve.
Tocados pela sinceridade do príncipe, os anões concordaram. Durante o transporte, os servos tropeçaram na raiz de uma árvore. O impacto do solavanco deslocou o pedaço de maçã envenenada preso na garganta de Branca de Neve, e ela despertou.
Feliz com o milagre, o príncipe a pediu em casamento, e uma grande festa foi organizada. A Rainha Má também foi convidada. Antes de sair de seu castelo, consultou o espelho e descobriu que a noiva do novo reino era mais bela do que ela.
Ao chegar à celebração e reconhecer Branca de Neve, a vilã ficou paralisada de terror. Como punição por seus crimes, sapatos de ferro foram postos em brasa e trazidos ao salão. A rainha foi obrigada a calçá-los e a dançar sem parar até cair morta.
O valor cultural de um clássico
A história de Branca de Neve integra o rico acervo reunido pelos Irmãos Grimm, que resgataram o folclore europeu e o transformaram em obras fundamentais da literatura mundial. A versão original traz lições morais severas, em que a vaidade desmedida é punida sem piedade e a bondade vence após grandes provações.
Branca de Neve e seu príncipe governaram o reino com sabedoria e justiça, sem nunca esquecer a gratidão aos sete anões, que seguiram sendo recebidos como convidados de honra no palácio pelo resto da vida.